quarta-feira, 3 de abril de 2013

Seu perigoso olhar



Ela caminha pelas ruas com seu ar de aristocrata da favela. É persona grata dos barracos, admirada, querida, idolatrada e salve-salve. Traz em seus shorts jeans curtos e no top rosa choque a finesse leviana de uma mulher que impõe respeito e bota pra quebrar. Seu corpo esguio de pele negra, os cabelos afro como uma aureola noir sacudida pelo vento, mostram que está no controle e sabe o que quer. Todos sabem que quando ela levanta pela manhã já tem um plano, que não é pro dia dela. Já sabe o que quer representar no dia daqueles com quem cruzar até o anoitecer.

Diz para si mesma que não será mais tola na mão de neguinho nenhum. E que está muito bem sozinha. Por que na mágoa de seus olhos maquiados e lábios grandes rosados, ela ainda se lembra do que a fez cair de quatro de cima de seu trono real...

Foi aquele maldito olhar!

Ele levou todo seu fôlego e calou sua poderosa voz. E o sacudir de seus cilhos num piscar tão lento e onírico, fez sua vontade de partir simplesmente ir embora. E foram aqueles malditos olhos que a prederam ao redor de seu corpo tão másculo e firme, e a fez se quedar na paixão outra vez. Culpa daquele maldito olhar!

Ainda ontem ele falou, xingou, brigou e chutou os móveis. Pegou a nega pelo rosto e beijou seus lábios com força. Foi empurrado pra fora aos gritos, berros e choros, e mais uma vez ela o expulsou.

A favela toda prendeu o ar e aguardou. Seria daquela vez que a rainha se libertaria do ciúme e da dor? Naquele momento seu legado todo importaria, e seus suditos apreensivos sorriam. Mas de lá do portão, ele se virou e olhou... Ela viu aquele maldito olhar, que novamente a convenceu em deixá-lo ficar.

Promessas vazias lhe fizeram sentido outra vez e acreditou que ele iria mudar dessa vez. A amaria ainda demais – prometia – e rasgaria todo aquele seu vestido lilás. E assim ela caiu em suas mentiras, seus braços, suas pernas, seu torso forte e arranhou suas costas.

Tudo por causa daquele maldito olhar, que a expulsava da casca e deixava nu seu corpo quente e febril, nas mãos daquele homem deliciosamente vil.

Maldito olhar.

Um comentário:

Allan Lucena disse...

Malditos olhares que nos prendem e fazem o fôlego faltar, o mundo parar e o coração se agitar!

Adorei!
Muito forte!